segunda-feira, 26 de julho de 2010

Queridos terráqueos.

Olá, estou vivendo no Éden.
As pessoas dizem, que aqui é o lugar perfeito, e de fato, eu também achava.
Quando cheguei, estava muito ansiosa por uma fuga da realidade, e essa viagem ao lugar perfeito, me pareceu bastante convincente. A impossibilidade de chegar aqui me foi concebida.
A princípio, jurei que não queria mais ir embora e voltar ao caos humano em que vocês estão vivendo. Éden é muito diferente da terra, como vocês imaginam. Todos os rios e mares são limpos, a água verde, azul, translúcida, aparecendo claramente os corais e plantas aquáticas, e a areia branca, repleta de conchas.
O ar também é mais limpo, mais puro, mais fresco.Sempre há sombra, pois há tantas árvores... Posso descansar embaixo delas ou em seus galhos, e me deliciar com seus frutos e me perfumar e enfeitar com suas flores. O solo é extremamente fértil, não há nada que eu plantei que não nasceu e frutificou rapidamente.
Aqui não conheci a palavra fome, embora eu tenha trabalhado um pouco para poder comer. Mas nada cansativo, parece que sempre que eu me sentia cansada, batia um vento gostoso, e eu avistava uma sombra fresca ou uma gruta aconchegante, sempre no momento certo.
As chuvas periódicas pareciam lavar minha alma. Deixavam o clima agradável, uma mistura excelente entre o quente e o frio.Sabe que, aqui encontrei minha paz?
Um dia, caminhando, me deparei com uma macieira.Me lembrei da passagem bíblica, e fiquei com medo de comer aqueles frutos, mas resolvi arriscar.Vagarosamente, fui me aproximando da árvore e subindo pelo seu tronco, sentei em um galho, e fiquei a contemplar um de seus frutos. Depois de um tempo encarando a maçã, dou uma mordida. A fruta estava deliciosa e suculenta, como todas as outras frutas daqui, do paraíso.Nada de mal me aconteceu por tê-la comido, e assim, percebi que aqui não há o pecado.
Muito satisfeita com minha descoberta, continuei a andar.Éden é bem grande, sabe?E eu gostaria de conhecê-lo por inteiro.
A minha descoberta seguinte não foi tão boa: descobri a solidão.
Aqui não há muita vida, só vi plantas, até a metáfora da serpente na macieira não deu certo... Hoje mesmo, comecei a andar logo de manhã, e me bateu uma saudade de tudo o que tinha na terra, me bateu uma saudade da bagunça, do barulho, das conversas. Tudo o que eu queria fugir, é agora tudo o que eu quero ter de volta.Acabo concluindo que não há ordem sem o caos, e que a perfeição, definitivamente não existe.
Quero voltar a terra, quero meu perfeito mundo imperfeito, com todas as qualidades e todos os defeitos.
Chega do Éden, chega! Depois disso, desisto de visitar "Utopia"...
Saudade de vocês, terráqueos.
Carinhosamente, Jamile.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Ah, e dizer que isso vai acabar, que por sí mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja. (...)


"Onde estiveste de noite" -1994

-Clarice Lispector


sábado, 3 de julho de 2010

Lobos, florestas e maçãs envenenadas...


Sem fadas, sem mágica, apenas eu, sozinha em uma floresta assombrada. O lobo estava de guarda, e sentiu o cheiro do meu medo, como o bom cavalheiro que ele não era, veio me acompanhar ao caminho até o nada.

"Aonde está indo?", me pergunta gentilmente. Digo que procuro um lugar perdido, que não o encontro a muito tempo, e ignorando-o, continuo a andar. Ele me segue, e aproximando-se de mim, sinto seu doce perfume me intoxicar por dentro, me sinto atraída pelo lobo... Seria um romance impossível. O lobo já tem o seu lar, a floresta, que o consome, e sem perceber torna-se preso à ela, e não pode livrar-se, por mim.

Na verdade, pode. Mas como confiar em um lobo que larga o que há de mais importante, por uma garotinha perdida?

Continuo a andar, ele segura a minha mão, me sinto segura, sabendo que na verdade estou correndo grande perigo.

"Essas maçãs estão envenenadas... Gostaria de uma?" , querendo recusar, puxo uma da cesta, e continuo a andar, sem morder, mas me sentindo tentada.

E andar com aquele lobo se torna mágico, começa a trazer magia para aquela floresta, mas meu lugar nunca chega, começo a crêr que ele nem ao menos exista, devo continuar?

E acho que, inconsciêntemente, mordi a maçã.